Lota – Coltura

Marcelo Bressanin, Brasil.

Tecnologías Sonoras

ENTRE DOIS TÚNEIS, ENTRE TEMPOS,
MEMÓRIA SOCIAL DA PERCEPÇÃO DA
PAISAGEM SOM LOCAL

LOTA: UM PARÊNTESE ENTRE
DOIS TEMPOS

Fotografías  >  Ana Santilli Lago.

Em uma obra publicada em 1929 pela Cia Minera y Industrial de Chile, o historiador Octavio Astorquiza resumiu em uma frase a explicação para uma série de processos socioeconômicos que marcaram  e ainda marcam fortemente a história da cidade de Lota: “(…) és que hay allí minas de carbón”.

Octavio Astorquiza. Lota: Antecedentes históricos, 
con una monografía de la Compañía Minera e Industrial de Chile (1929)


Ao longo das oito semanas da residência artística promovida pelo festival Toda la Teoría del Universo, vivendo na praia de Colcura e envolvido diariamente em derivas, gravações de campo e entrevistas realizadas em Lota, não demorei a notar que essa constatação, um misto de nostalgia e de sina, ainda hoje impregna todas as dinâmicas sociais e culturais lotinas.

Depois de mais de vinte entrevistas extensas, com representantes de diversos segmentos da comunidade lotina, tornou-se evidente que sim, ainda existem ali minas de carvão, dezenas de túneis não mais funcionais que contudo ainda percorrem profundamente não apenas o subsolo de Lota como também, e principalmente, o imaginário de todos os seus habitantes.

Talvez por essa razão, a busca de marcos sonoros que permitissem interpretar poeticamente a paisagem local resultou, em grande parte, numa coleção de silêncios. As minas de carvão não soam mais, porém, sua quietude reverbera de forma extremamente perceptível entre os lotinos, nas ruas, nas praças e na feira da cidade, em sua visão do passado e em suas perspectivas para o futuro. 

As minas se foram – e não irão retornar. Isso todos ali sabem. Entretanto, e apesar de todas as evidências da precariedade do regime social e trabalhista ao qual foram submetidos os mineiros e seus familiares no passado, o mito de uma Lota potente, sob o jugo absoluto da família Cousino, paira constantemente no ar quase como um desejo contido.

Eros e Tânato, vida e morte, duas pulsões antagônicas parecem povoar os túneis das minas sob Lota, bem como os pensamentos da comunidade local. Em torno do carvão, elemento que atua simultaneamente como aglutinador de memórias e como disruptor de perspectivas, são nítidos os dois principais argumentos presentes nos discursos lotinos: o quão significativa e potente foi a Lota mineira e quantas são as incertezas para o devir da cidade.

Taller: Ejercicios de Escucha. Casa de la Cultura de Lota. 20 de Octubre.

O carvão, predatório em sua essência e ao mesmo tempo signo mítico do progresso e da prosperidade na mentalidade local, sumariza em sua imagem uma tensão entre passado e presente, entre vida e morte, estabelecendo um hiato na percepção dos lotinos: um vazio entre um antes e um agora que, sintomaticamente, parece aniquilar projeções para o amanhã. 

Entre um passado idealizado e a ausência de perspectivas para o porvir, Lota parece seguir sonâmbula, silenciada pelos sons já não mais audíveis das minas e de suas dinâmicas.

Abordando estas tensões, a instalação sonora site specific “Parêntesis”, criada ao longo do processo de residência artística, se apropriou da iconicidade do carvão mineral, tal como percebida nos depoimentos dos moradores de Lota.

Apresentada no Odeon da Plaza de Armas, em Lota, a obra consistia em uma sistema sonoro multi-canais instalado em torno de cerca de cem quilos de carvão mineral, sob o qual se ocultavam um sob-woofer e um sensor de presença/distância. Ao redor da amostra de carvão, falantes sem fio executavam uma peça sonora composta a partir de trechos de depoimentos dos moradores entrevistados e de amostras sonoras coletadas a partir de referências presentes em suas falas. Contudo, ao se aproximarem do carvão ali exposto, os visitantes acionavam automaticamente a execução de uma segunda camada de áudio composta por frequências sub-graves que praticamente inviabilizavam a escuta do material sonoro exposto ao redor. 

Com isso, Parêntesis buscou mimetizar a experiência cotidiana em Lota, promovendo uma expe- riência na qual o término de um ciclo de exploração econômica brutal parece ter constituído um interlúdio silencioso: um intervalo indeterminado no qual as ressonâncias das minas de carvão permancem fortes o suficiente para ainda hoje encobrir possíveis novas paisagens lotinas.

<Paréntesis> Instalación sonora site specific.
Plaza de Armas, Lota. 31 de Octubre

Ao longo do processo de pesquisas, instalado em Colcura, entre dois túneis ferroviários, pude experimentar por algumas semanas vivendo entre dois tempos: o passado e o presente de Lota. Todas as noites, enquanto organizava, decupava e editava as entrevistas e amostras sonoras coletadas durante minhas investigações diárias, fui regularmente visitado pelos trens de carga que transitam em por ali, carregando insumos para a indústria papeleira instalada naquela região. 

Alheias à minhas reflexões, as composições férreas gigantescas simplesmente ali passavam, com seu rugido grave entremeado por guinchos estridentes. Tais como monstros, frios e determinados, atravessam cotidianamente Lota levando e trazendo os itens necessários para um novo uso extrativista, que desta vez parece contribuir muito pouco para o desenvolvimento – ainda que mínimo – da comunidade.

Um dos últimos ícones do “progresso” industrial local, os trens noturnos sempre me remetiam ao “poder” do carvão. E, inevitavelmente, me faziam pensar nos comentários de Walter Benjamin sobre a pintura Angelus Novus”, de Paul Klee, e na ideia do progresso como uma tempestade monstruosa. Uma tempestade que nos orienta a mirar inevitavelmente o futuro, “enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu”.

Archivo sonoro: Residencia Lota: Um Parêntese entre dois tempos

por Marcelo Bressanin.

Marcelo Bressanin, São Paulo, Brasil. Artista Sonoro, desde 2010, Marcelo actúa como artista interdisciplinario, dedicando sus investigaciones al arte sonoro y sus relaciones con otros lenguajes, en performances, instalaciones y otros formatos. Creador del colectivo DUO b, con el que participó de residencias artísticas, de muestras individuales y colectivas y de proyectos colaborativos. En 2018 comenzó a trabajar de forma individual.